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Coluna

Publicada em 02/03/2020 às 01h34

União contra a violência e a ignorância

Cresci assistindo jogos perto da Bamor e da Baconha (estou fora da Bahia há anos, nem sei se ela resistiu à “gourmetização” do estádio), nos Bavices, as torcidas eram separadas pela mista dos dois times, não havia cordão de isolamento. Não sou romântico ou mentiroso para negar que haviam brigas já nos anos 80 e 90 mas eram localizadas e espontâneas, muitas entre torcedores do próprio time.

Morei no Nordeste (o “de Amaralina” é pra leigos) e cansei de ir pra Fonte no Vale das Pedrinhas - Barroquinha (velho 0717) com as duas torcidas dentro. Uma provocando a outra mas sem brigas já que depois do jogo éramos todos vizinhos, colegas de trabalho e ou de escola.

Na hora de comprar o ingresso, naqueles buraquinhos da bilheteria, todo mundo junto na mesma fila da geral, nossa torcida era muito maior e mesmo assim não se via covardia contra aquela minoria sofrida.

Tudo isso acabou. Está morto e enterrado, junto com as demais vítimas da violência que passou a tomar conta dos nossos estádios de 97 pra cá. Apontar o dedo para os marginais que usam a Bamor e a Imbatíveis como desculpa para se matar é lugar comum e preguiçoso até. Óbvio que são eles que se matam, atingem inocentes e afastam pessoas que querem apenas assistir seu time vencer o jogo.

Para dar uma resposta ao crescimento da violência em dias de clássico, as autoridades decidiram fazer algo preguiçoso mas, que na teoria, e somente nela, traria resultado: separar as duas torcidas. Foi o primeiro erro. Pra encurtar o texto, esse vídeo explica meu ponto.

Com o evidente fracasso dessa medida, Ministério Público do Estado e Polícia Militar resolveram punir os torcedores e dar moral aos marginais. Agora, o torcedor do Bahia não pode apoiar seu time nos clássicos com mando de campo do rival e vice-versa. Para surpresa de absolutamente ninguém, as brigas dentro das torcidas únicas não acabaram, e os marginais continuam a se matar a léguas de distância do palco da partida, pois o jogo é só a desculpa que eles usam para destilar seu primitivismo.

Um efeito colateral não previsto ou ignorado pelas autoridades é a caça-às-bruxas entre torcedores do mesmo time. No final do ano, imagens de torcedores do Botafogo-RJ agredindo um botafoguense suspeito de ser flamenguista só por não estar usando a camisa do time correram o país. O mesmo ocorreu num jogo do Palmeiras. Em Salvador, recebi dois relatos assustadores pelo twitter, em ambos, torcedores legítimos foram acusados de serem rivais. Por sorte, ambos saíram ilesos.

Sim, os marginais que se infiltram na torcida mandante agem como os alemães que denunciavam seus vizinhos suspeitos de serem judeus. Coisa similar ocorreu nos EUA durante o chamado Macarthismo. Nossas autoridades ignoram a história.

Enquanto isso, o clássico vira uma coisa xoxa, sem graça, com a pirraça gostosa se resumindo aos grupos de Whatsapp e aos memes no Facebook e Twiter. Talvez quem não goste do futebol não entenda, mas, metade da graça de ganhar um clássico é ver o rival perder. Ou seja, não basta vibrar a cada gol nosso, precisamos ver a torcida rival murcha. Sou da época do “chora rubro-negro, rubro-negro chora, pega essa bandeira enfia _ _  _ _ e vá simbora”.

Apesar do cenário desolador, graças ao bom-senso que resta de ambos os lados, há torcedores que desejam a volta das duas torcidas aos clássicos. Grupos organizados de Bahia e Vitória têm se manifestado nas redes sociais buscando uma solução para essa tentativa de homicídio do BA-VI.

Acho a atitude louvável e fico triste por não poder ajudar presencialmente os Antifas do Bahia e a Brigada Marighela do Vitória (antes que você venha dizer que a mobilização não presta por ser coisa de comunista, devo lembrar que o pleito deles é que você volte a gastar seu amigo vice dentro do estádio, como se fazia tanto nos idos da ditadura, com seu motoradio a tira colo, como os anos do PSDB, já usando walkman da Aiwa).

Não se trata de esquerda ou direita, nem de esquecer que a direção do rival fez um curral criminoso ou que a nossa direção coloca os visitantes no último anel da Fonte, sob o sol de 15h. trata-se de não permitirmos que criminosos impunes e autoridades com má-vontade tirem a graça do BAVI, tornando-o apenas um enlatado monotônico.

Por fim, espero que a insatisfação dos torcedores de ambos os lados faça com que o Bahia através de seu Núcleo de Ações Afirmativas tome a iniciativa de buscar uma solução junto ao Vitória, para que possamos receber os rivais e sermos recebidos lá não apenas como torcedores mas também como clientes que lhes gera  renda e torna os clássicos muito mais interessantes.

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