é goleada tricolor na internet

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Coluna

Cássio Nascimento
Publicada em 31/07/2020 às 12h09

O ocaso dos Estaduais no mundo globalizado

O Campeonato baiano é antigo e tradicional: com mais de cem anos de história, teve, em Salvador, grandes clubes, assim como o Rio de Janeiro. Quem não se lembra de Galícia e Ypiranga papando títulos? Ou de Bahia e Ypiranga como o maior dérbi da Capital? Os outrora elitistas Bahia e ECV, aos poucos, foram assim conquistando espaços, com mais dinheiro, poder político e organização, assim oligopolizando o futebol local, enfrentando a preferência pelos clubes sudestinos. A diretoria do ECV, por sinal, chegou a promover uma campanha velada de identidade visual, deixando-o muito parecido com o Flamengo (escudo, fornecedora de material esportivo, design do uniforme etc), para conquistar mais torcedores, visto que sua torcida, em Salvador, era infinitamente menor que a torcida dos cariocas.

Mil teorias hão de surgir para justificar o monopólio de cariocas e paulistas no coração da torcida baiana, como maior alcance das rádios cariocas, influência de rede de TV e a discutível tese do “nível técnico maior” do Sudeste, uma vez que ninguém assistia os jogos por não haver TV em boa parte do tempo. Fato é que Bahia e ECV sempre conviveram com tal concorrência, mas Salvador tem 3 milhões de habitantes em vez de 1 (final dos anos 60); existem internet, redes sociais, tecnologia, dois clubes que já estiveram em finais do Brasileiro... qualquer desculpa para comemorar Taça Guanabara à beira da Baía de Todos os Santos se torna esfarrapada.

Atualmente, fala-se em acabar com os Estaduais, e eu sou um defensor parcial desta ideia. Algumas pessoas discordarão frontalmente de mim, e acredito que seus argumentos sejam do tipo “como vamos fomentar o futebol local desta forma?” ou “como criar novos torcedores sem rivalidade local?” Pensando um pouco fora da caixinha, lembro, rapidamente, de Liverpool e Everton (não tem nenhum Merseysider Championship que eu me lembre). O azul e branco já foi campeão inglês e é um clube hiper-tradicional, apesar das vacas magras pelas quais passa – e o rival de verdade dos vermelhos, atualmente, é o Manchester United (clássico “inter-condadal” tipo Bahia x Sport, pois tratam-se de cidades de regiões diferentes separadas por menos de 100 Km)... porém, experimente ver um dérbi lá na terra de Lennon! Pega fogo.... o que dizer, então, do clássico político-esportivo Barcelona x Espanyol? Ok, a Espanha é o que não queremos que aconteça no Brasil, mas apesar do indiscutível poderio técnico-midiático-patriótico dos pró-Catalunha, o rival vende caro, e muito, as pancadas que recebe do time de Messi.

Durante muitos anos, Bahia e ECV alimentam esta rivalidade, incorporando tanto seu lado sadio quanto seu lado patológico. Rivalidades são absolutamente saudáveis, apesar de seus efeitos colaterais como sufocamento de possíveis terceiras forças. A Bahia é um Estado relativamente jovem em colonização, sendo que há regiões inimagináveis aos soterpolitanos, distantes 1000 Km de Salvador, onde os locais se identificam com Minas Gerais ou Distrito Federal, por exemplo. Não é o que ocorre, por exemplo, no Rio Grande do Sul, onde o sentimento da “gauchidade” perpassa quaisquer sotaques e culturas (tá surpreso? Pois é.... gaúcho não é tudo igual não!). Enfim, o civismo das pessoas não é assunto para se discutir por aqui, mas o fato é que a Bahia é um estado plural, desigual, composto de várias pessoas de várias origens e de várias culturas.

Quanto a estas diferenças culturais, acredito no poder das embaixadas em fazer esse trabalho de formiguinha, cujos efeitos poderão levar uma década ou mais para serem sentidos. No que diz respeito ao futebol local, o que mais atrapalha o seu sucesso está justamente nas diferenças entre as diversas regiões do Estado da Bahia e sua logística pra lá de deficitária. Por exemplo, dentre os aeroportos em condições de receber grandes voos, temos, além de Salvador, Feira de Santana, Vitória da Conquista, Ilhéus, Porto Seguro, Paulo Afonso, Teixeira de Freitas, Valença, Lençóis, Bom Jesus da Lapa e Barreiras. Pergunte quantos desses aeroportos tem voos regulares para Salvador. Pergunte, dentre os que tem esses voos, quanto custa a passagem.

O Campeonato baiano, atualmente, tem participantes de regiões como Juazeiro (500 Km), Riachão do Jacuípe (280 Km), Conquista (500 km), Alagoinhas (130 Km), Feira de Santana (120 Km) e Jacobina (330 Km). Muitos destes participantes vivem de ajuda das federações para se deslocar, em estradas perigosas, muitas delas rotas de tráfico como as rodovias que vão até Conquista, Juazeiro ou Jacobina. Qual o público pagante gerado por tal competição? Que torcida há, nessas cidades, para assistir seus times locais exceto quando os grandes da capital estão jogando? O abismo técnico e financeiro é evidente, e salvo pela intervenção de um Bahia de Feira ou Colo-Colo, a dupla Ba-vi continuará sendo, ao mesmo tempo, a graça e a desgraça da competição.

“Ok, Cássio, você falou pra caramba mas não explicou porque é contra o fim dos estaduais de forma parcial”. Primeiramente, quem manda é o dinheiro, e os clubes terão que optar pelas suas tradições ou pela sua reinvenção, sob pena de retorno ao amadorismo. Não estou pregando que Jacobina deixe de ter seu time; ou que Juazeiro não possa jogar aonde quiser. Acredito que, neste caso, a primeira medida é que a dupla Ba-vi deixe de disputar esse campeonato com suas equipes principais, o que de certa forma começa a ocorrer. Ou seja: que deixem os interioranos se aperfeiçoarem e crescerem com as próprias pernas.

O segundo passo, este mais ousado, seria inclusive transformar esses campeonatos estaduais em seletivas para a Série D do Brasileiro ou da Copa do Brasil, obviamente, excluindo-se os clubes que já estão nas outras séries do nacional. Bahia e ECV até poderiam participar, desde que o façam como “café-com-leite” a exemplo do Real Madrid B, que vai morrer na segundona espanhola.

Alguns leitores, certamente, vão me crucificar e me acusar de ter “ignorado a minha terra” após 15 anos longe de Salvador. Contudo, até mesmo pra quem está de longe, é fácil enxergar que pode parecer estranho itabunense comemorar Taça Guanabara – e mais estranho ainda é um clube que quer ser grande disputar competição sem nenhum apelo financeiro, só pra evidenciar dirigente fanfarrão e manter rivalidade que nem existe mais. O Liverpool tá aí que não me deixa mentir.... ok, o clube foi vendido a um bilionário árabe, russo etc; mas ele sempre viveu sua vida, sem menosprezar a rivalidade com o Everton (inclusive seus estádios estão a 1 km do outro), focando no que realmente importa, e hoje são campeões do mundo – justamente em cima do tão amado flamengo de alguns conquistenses, juazeirenses, teixeirenses e barreirenses.

Saudações Tricolores!

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