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Coluna

Cássio Nascimento
Publicada em 07/08/2019 às 18h05

O Jubileu de prata de um inesquecível Agosto

"Agosto é o mês do desgosto", diz o adágio popular. Crendices e medos à parte, o mês de agosto representa, para a torcida tricolor, um acontecimento que jamais sairá da cabeça do torcedor com mais de 35 anos de idade: o famoso gol de Raudnei, ocorrido no gol da Ladeira, numa tarde-noite em que um grito ecoou da Fonte Nova até bairros como Caixa d'Água, Politeama, Garcia etc. Dificilmente um torcedor do Bahia que viveu aquela época não se lembra, com exatidão, de onde estava e o que fazia naquele dia e naquela hora.

Após o incrível vice brasileiro do rival em 1993, o baiano 1994 começou pegando fogo. O esdrúxulo regulamento da época, repleto de fases, turnos e afins, permitiu intermináveis jogos repletos de clássicos por todos os lados: doze para ser mais exato. O Bahia tentava se refazer de um dos piores brasileiros de sua história, enquanto o rival de Canabrava surfava na onda e na fama recém conquistada lá pros lados de Caxias... O primeiro turno começou com um sonoro 4x0 do ECV em plena Fonte, placar repetido no segundo turno. Contudo, o (ainda existe?) Camaçari levou o primeiro turno enquanto o rubro-negro levou o segundo. Tudo parecia perdido para o Bahia, correndo risco de passar a terceira força local, diante do velho Camaça, que chegou a eliminar a sensação da época Paraná Clube da Copa do Brasil.

Eis que o Bahia, na tentativa de juntar os cacos, chama o Sr. Joel Natalino, aquele que pescou sardinhas nos córregos do ostracismo atual, lembrado mais pelo humor involuntário como professor de inglês para analfabetos do que pelas suas incríveis retrancas baseadas em contra-ataques fulminantes. No contexto pericopa 94, a tática de encher o time de volantes foi bem aplicada no tricolor, contando ainda com o polivalente Paulo Emílio e quatro bons atacantes se revezando no posto onde só havia duas vagas efetivas... junto com Joel, vários reforços desconhecidos como os meias Israel e Maciel, o zagueiro varapau Advaldo, o ainda não selecionável lateral Serginho e o atacante Raudnei.

Raudnei Freire, então com 29 anos, é o personagem do dia: paulista de Echaporã, cidade de 5000 e poucos habitantes na região de Marília. Começou pelo Juventus da Rua Javari, passando por um sem número de clubes brasileiros, mas também pelo badalado Porto de Portugal. Centroavante à moda antiga, não muito alto mas oportunista e rápido. Nunca chegou a ser uma unanimidade enquanto titular, até porque tinha como "rival" o grande Marcelo Ramos, mas era taticamente importante e fazia gols decisivos.

Voltando ao Campeonato Baiano, com as modificações pós-Joel, o Bahia mudou radicalmente sua postura em campo, superando o rival com folga nos dois turnos subsequentes. Destaque ao incrível gol de falta de Uéslei no improvisado goleiro do ECV João Marcelo (ele mesmo, o zagueiro do Bahia em 88) pós-expulsão do goleiro Borges na final do quarto turno... tipo o gol de Zico pelo Flamengo contra o Santa Cruz em 1987... numa quente manhã de domingo em dia de jogo do Brasil na Copa.

Bahia com dois, ECV com um, Camaçari com um turno cada. Vamos às finais, disputadas num triangular final ida-e-volta com confrontos diretos. Nem é preciso dizer que o time do Polo Petroquímico apanhou mais do que boi ladrão.... eis o primeiro clássico, no qual o rival jogou como campeão, fez 1x0 e não ampliou a vantagem por causa do goleiro Jean I- O Espalhafatoso, o qual defendeu cabeçada mortal do finado Alex Alves estilo Gordon Banks 1970.

Seguimos à partida decisiva, com público total de 97240, um dos maiores públicos da história da Fonte Velha: este que vos fala estava lá, na antiga Cadeira Inferior, com o tornozelo direito engessado, mas fui assim mesmo. Dispensemos descrições da partida, a qual pode ser resumida assim: em cada um dos tempos, quem perdeu mais gols tomou gol.

Alguns torcedores e cronistas dizem que o gol de Raudnei foi aos 46 do segundo tempo, porém, antes do lance do gol de empate, houve um princípio de briga entre os jogadores, o que levou o árbitro Márcio Rezende a paralisar a partida por alguns minutos. O estopim do lance foi causado pelo próprio Raudnei, que dividiu com um rival na linha de fundo de forma um tanto agressiva... talvez isso tenha esfriado o desespero dos dois lados, um de marcar e outro de se defender) que tomava conta do jogo àquele momento. Resultado, bola recuada pra Jean, depois pra Missinho, que levanta para Advaldo raspar de cabeça para Souza que raspa de cabeça pra bola cair no pé do matador Raudnei. Um lance estranho, no qual todos assistiam a bola voar diante de si, dentro e fora de campo. Nem os jogadores do Bahia acreditavam que seria um lance de gol, apenas rifaram a bola adiante rumo ao ataque percebendo o fim iminente do jogo.

Nas palavras do Prof. Edmundo Franco, dois terços do estádio explodiram, e um terço, boquiaberto, não acreditava no que estava vendo. Uns chamam de gol espírita, outros chamam de destino, outros chamam de estrela. O fato é que aquele gol significou muito mais do que o bicampeonato baiano e o fim da empáfia do então vice-campeão brasileiro: significou a sobrevida do Bahia num modelo de gestão que já dava sinais de cansaço, apesar da grande campanha no Brasileiro do mesmo ano. Os anos subsequentes marcaram o começo de uma crise no Bahia, dentro e fora das quatro linhas, cujos pontos culminantes foram os rebaixamentos de 1997 e 2005, além do inferno da Série C - tudo isso enquanto o rival crescia em patrimônio e estrutura, conquistando a terceira posição do Brasileiro cinco anos depois.

Mais do que uma dessas histórias que o torcedor nunca esquece ou um desses clássicos que entraram para a História, o gol de Raudnei, que completa vinte e cinco anos hoje, foi o marco zero do fim de um Bahia para o recomeço de outro. A sua torcida/quadro social têm, em suas mãos, a oportunidade de escrever outra história para seu clube, quem sabe, mais gloriosa e com outros gols inesquecíveis, em competições muito mais importantes e/ou com adversários muito mais difíceis.

PS: Em 7/8/1988 foi, também, a minha estrEia na Fonte Nova, na final do Baiano (obviamente um Ba-vi), num belíssimo 3x0 (Pereira, Renato e Osmar) com direito a uma mega-pancadaria após o terceiro gol, em razão dum pontapé covarde do goleiro do ECV sobre o ponta direita tricolor: destaque para as expulsões: quase todos os jogadores - com exceção de uns 3 tricolores. Naquele dia, o goleiro Ronaldo mostrou que além de bom goleiro, é um excelente boxeur...

Saudações Tricolores!

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