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Coluna

Djalma Gomes
Publicada em 06/06/2020 às 23h16

O eterno capitão tricolor

O tema desta coluna é sobre a saudade. Saudade que dói, saudade de quem jamais voltaremos a abraçar, saudades... Saudade com nome de Élcio Nogueira “Sapatão” da Silva. É muito dolorido para o meu coração perder um amigo querido sem pelo menos poder visitá-lo no hospital. Mas muito pior foi não poder levar meu sentimento à cerimônia da cremação dos seus restos mortais. Limitei-me a recordar nossos momentos felizes, que foram muitos, e fazer uma oração recomendando aos anjos e arcanjos que o levassem direto, sem “intervalo”, para Deus.

O meu amigo Sapato – assim eu o tratava – não merecia passar uma noite tão só num necrotério de hospital e no dia seguinte ser levado para o crematório sem a presença dos amigos – foram apenas a esposa Ju, os filhos Roberto, Renata, Rafaela e genros  – e certamente boa parte da torcida que estaria presente sem nenhuma dúvida.

– Logo ele que viveu metade da sua vida no calor dos estádios lotados e coloridos, sob aplausos, e agora partiu como se nenhuma importância tivesse para as pessoas que o amavam...

Lançou-se ao desconhecido um amigo que a vida me deu gratuitamente. Lembro-me quando ele deixou o futebol e procurou-me na empresa dizendo que gostaria de trabalhar comigo, pois precisava aprender uma nova profissão. Estava preocupado, mas falava como se estivesse brincando.

E então trabalhou conosco dedicadamente, com a dignidade que sempre o caracterizou,  por cerca de 6 anos. Mas o futebol estava em sua alma e um dia ele resolveu abraçar a carreira de treinador e foi em busca do seu sonho. Merecia e precisava de uma oportunidade num grande clube, ainda que inicialmente como auxiliar técnico, coisa que afinal não aconteceu. São as injustiças no futebol

– Exerceu por algum tempo sua paixão pelo futebol como técnico de alguns clubes baianos e paulista, mas não deu o salto que gostaria de ter dado na carreira de treinador por falta de oportunidades, apesar do seu conhecimento sobre futebol ser acima da média.

Cidadão simples e de muita humildade, Élcio Nogueira deixa um legado de bondade, dedicação e fidelidade à família, bem como de lealdade aos amigos. O eterno Capitão Tricolor deixa também uma lacuna impreenchível no coração do torcedor que viu o Bahia, capitaneado por ele, conquistar o Hepta campeonato estadual de forma insofismável nos anos 70.

A boa fé era uma das suas muitas qualidades, mas não raro isso lhe custava caro. Não lidava bem com a maldade humana quando de fato essa era praticada contra ele.  Se ele soubesse lidar com a maldade – necessária em alguns momentos – certamente teria sido um homem de poder aquisitivo muito melhor porque a condição de vencedor naquilo que ele praticava com eficiência lhe daria a vantagem de discutir melhores contratos no futebol.

Além de jogador, Élcio era um amoroso torcedor do Bahia ao ponto das renúncias, se fosse preciso. Lembro um episódio durante a campanha do Hepta em que o Bahia chegou a atrasar em cerca de quatro meses os salários dos atletas e havia mais de 20 “bichos” também sem pagamento. Então conversando comigo Sapato disse-me com toda humildade, o que era bem peculiar ao seu caráter, que se o clube pagasse a metade dos “bichos”, dois meses de salários, e a condição fosse dispensar o restante, ele aceitaria sem discussão.

Charles Dickens dizia que, “tudo o que tentei fazer em minha vida o fiz de todo o coração para fazer o melhor. Tudo aquilo a que me devotei também o fiz de maneira completa. Tanto nos grandes objetivos quanto nos pequenos, sempre me comprometi profundamente”.  Isto se encaixaria na filosofia de vida do saudoso amigo, Élcio Nogueira.

Fica a lição da vida que achamos ser nossa, mas que na verdade pertence ao Espírito, que por seu lado pertence a Deus. Nós somos apenas o invólucro que abriga temporariamente o Espírito. Um dia o Espírito volta para casa e esse invólucro vira pó... Adeus, meu amigo Élcio Nogueira! Deus te acompanhe nessa nova jornada.

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