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Coluna

Publicada em 28/10/2019 às 20h35

O Bahia e a Menininha Ruiva

A sequência de resultados ruins do Bahia além de ter decepcionado sua torcida, tem gerado uma série de teorias conspiratórias ou de causas extra-campo: bicho, rachas, pré-contratos para 2020, relaxamento, falta de foco da diretoria lacradora.

Não acredito em nenhuma delas mas  sei que há algo de errado com o time em campo e, como estou de fora do baba, só me resta especular com base nas evidências que tenho. Nada de exclusivo, excepcional ou privilegiado. Apenas dados facilmente comprováveis.

O fato principal é que desde a final do Nordestão em 2002 o Bahia raras vezes conseguiu reverter situações desfavoráveis em decisões. Só para relembrar, naquele torneio chegamos à final contra o time de Canabrava em desvantagem. Mas ganhamos por 3x1 na Fonte e empatamos em 2x2 na casa deles. Outras exceções: A goleada no Vitória da Conquista pelo estadual de 2015 e os triunfos novamente sobre o rival no baiano de 2018.

Porém, o problema maior do Bahia não é conseguir “remontadas”, como dizem no boleirês contemporâneo, mas sim na hora de consolidar uma posição, conquistar um título ou ao menos alcançar um objetivo. O histórico de refugadas nas três últimas décadas do Tricolor é vasto  e por isso vou manter minha linha de corte neste século: acessos  de 2004 na B e 2006 na C, título da B em 2010, vaga na pré-libertadores em 2013, 2017 e 2018, títulos da Copa do Nordeste de 2015 e 2018.

Graças principalmente à internet, todo mundo hoje sabe quem é Charlie Brown (o personagem de Snoopy, não a banda de Santos). Quem já assistiu o desenho ou leu as tirinhas que saíam no A Tarde até os anos 90 sabe que “Minduim” é um jovem com sérios problemas de timidez, baixa autoestima mas ao mesmo tempo, altamente sonhador e bem- quisto pelos amigos e familiares.

O enredo de suas histórias era sempre o mesmo: por valiosos instantes ele esquecia a timidez, a autoestima mais baixa que a classificação do rival B e o medo de falar/agir em público e conseguia rebater a bola ou dançar  no bailinho de formatura. Tudo estava tão bem que antes de alcançar seu objetivo, ele começava a sonhar com o futuro maravilhoso que sua vida teria dali em diante. Mas no meio do caminho ele percebe que está divagando ou tem um surto de pessimismo e quando volta à realidade, tropeça e cai com a cara no chão e todos riem de mais um fiasco dele.

Não é preciso muito esforço para traçar um paralelo entre a vida do carequinha do desenho e o Bahia. O único ponto de 12 possíveis conquistado em casa é um tropeço digno do dono de Snoopy. Mas o que levava Charlie a ser assim e o que tem levado o Bahia a uma trajetória igualmente frustrante?

Charlie não era o mais alto, forte, inteligente ou bonito de sua turma. Era um menino comum, na média de sua turma só que se achava inferior aos demais, e esse era seu grande problema. O seu medo de falhar, sua timidez e sua autoconfiança que oscilava entre excessiva e inexistente são as causas de seu fracasso.

O presidente do Bahia tem se mostrado um presidente acima da média do que é visto no país. Empresário de sucesso, sabe que cautela e ousadia precisam ser dosadas para se conseguir sucesso em qualquer ramo da economia.  Como ainda é um novato no futebol, ele tem pecado nessa dosagem.

Seu discurso de pés no chão sobre a campanha do Tricolor neste Brasileiro é uma faca de dois gumes e já está cortando do lado errado. Repetido como se fosse o mantra dele, o fato de termos o 14° orçamento justifica em parte a colocação final do time  na competição mas não pode servir de causa para um rebaixamento, por exemplo.

No cenário em que o Bahia  se encontrava no começo do segundo turno, fungando no cangote do G-6, sendo elogiado pelo bom futebol por quase todos os veículos esportivos, resultados expressivos dentro e fora de casa, ele fazia questão de jogar um balde de água gelada na torcida lembrando que o Bahia tem dívidas, tem uma folha menor que a de 13 outros times etc.

Ele não mentiu. Contudo, perdeu a oportunidade de fortalecer a mentalidade de seus comandados. Não precisava falar besteira como o presidente do meu segundo vice favorito de  Recife  que disse que seu time não cabia em Pernambuco. Mas não precisava repetir aos 4 ventos que o Bahia estava indo além daquilo que, em sua cabeça, deveria ser o normal.

Que nosso time é de mediano pra bom todo mundo sabe, que o elenco tem deficiências sérias, idem. Apesar disso, esses mesmo caras conseguiram ganhar com mérito de grandes rivais e mesmo em algumas derrotas, cairam atirando. Foi esse comportamento, que levou a torcida a aplaudir, se associar e comparecer aos jogos.

Agora, chegando na reta final da competição, o que se vê é uma equipe instável, nervosa, errando fundamentos e perdendo gols absurdos, exatamente como se viu nas competições do primeiro trimestre. Parece ter entrado num devaneio de Charlie Brown, sonhando com a Menininha Ruiva e perdendo o compasso da música no baile de formatura.

O clube que “nasceu para vencer” de tanto sofrer nas mãos de gente da pior espécie por mais de 20 anos  teve seu DNA alterado para pior. Foi salvo pela intervenção e pelo trabalho sério ao longo desses 6 anos.  São visíveis os frutos tanto dentro quanto fora de campo. No entanto, ainda está longe daquilo que a torcida merece e mais ainda do que a torcida almeja.

Que o presidente e demais membros da diretoria e comissão técnica reconheçam que autoconfiança e ousadia são imprescindíveis para que  times com orçamentos limitados lutem contra o destino que lhes é traçado pela desigualdade financeira do futebol Brasileiro.

 

PS: Por experiência vivida neste ano sabemos que vaiar não faz o cara aprender a jogar. Sigamos apoiando Gilberto, Moisés, Guerra e até Giovanni. Nem que seja na resenha, como no caso de Nino e aquele gol contra o Bahia de Feira. Se não fizer eles colocarem o pé na forma ao menos não poderão dizer que nossa intolerância os prejudicou.

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