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Coluna

Publicada em 22/07/2020 às 11h42

Bahia: Como retomar o protagonismo? (Parte II)

Salve turma tricolor,

Estou de volta, ainda nesse contexto de confinamento que nos altera a percepção do tempo, apesar disso não ser desculpa para um intervalo tão grande entre um artigo e outro aqui na coluna do ECBahia (risos). (nota do site: clique aqui para ver o primeiro artigo )

O início dos anos 60, como abordamos na nossa primeira conversa, prosseguiu com o Bahia martelando mais duas vezes a porta de títulos nacionais, após ter inaugurado a competição como seu primeiro campeão. Esse desempenho, se naquela época houvesse “rankings” ou algum sentido de valoração esportiva que suplantasse a então ainda mais forte segregação imposta aos clubes de fora pelo Sudeste, talvez fosse mais reconhecido, mas até hoje pouco é lembrado. Imaginem o Bahia campeão de 88 e chegando também às finais de 90 e 92... Ou, para atualizar no formato mais semelhante à competição dos anos 60, vermos um Bahia 3 vezes finalista da Copa do Brasil nesta década , sendo campeão em uma delas? Haveria outra abordagem da imprensa hegemônica quanto à grandeza do nosso clube?  

Uma coisa era certa: um personagem foi central em todo naquele período da história do clube, de 1958 a 1969, estando à frente do tricolor por 11 anos: Osório Villas Boas. Dirigente à moda mais que antiga, já anunciava um tipo de cartola folclórico, centralizador e personalista, com um forte componente politiqueiro e de relações com a ajuda do Estado e do Capital representado pelos mecenas que constituíam a principal fonte de renda dos clubes, junto com as bilheterias. Vale salientar que os salários exigidos por jogadores e o patamar de investimentos que os clubes podiam fazer já refletiam as diferenças regionais, mas longe de serem as distâncias astronômicas que hoje se verificam. Osório conduzia o clube com sagacidade e de forma polêmica, mas que não se distanciava da forma como os outros clubes agiam. Era quase naturalizada uma pressão de clubes do sudeste sobre a CBD e os árbitros. Osório, com sua habilidade, sabia como enfrentá-los e contornar as diferenças.


Os anos 60 prosseguiram com a diluição natural do time campeão do início da década, correspondendo também a um encolhimento do Bahia no cenário nacional , ainda que, com sua crescente torcida e a Fonte Nova, reinaugurada no início dos anos 70, constituísse uma praça cada vez mais atrativa para o futebol como projeção da doutrina ufanista do governo militar da época.

No inicio dos anos 70, um novo cartola tricolor evocava uma personalidade forte, polêmica e centralizadora: Paulo Maracajá Pereira parecia trazer de volta o estilo de Osório, já de forma mais agressiva, intimidadora, do que “malandra”. Como diretor de futebol desde as primeiras gestões daquela década, foi com o presidente Fernando Schmidt que Maracajá levou o campo e a arquibancada à mesa de planejamento e visão de futuro do saudoso primeiro presidente da redemocratização. E , até aqui, onde nos situamos nesse texto quanto ao protagonismo do Bahia? Literalmente na Rua Antonio Fernandes, Jardim das Margaridas, onde se ergueu o Fazendão, centro de treinamento reconhecido à época como um dos mais modernos do país e que inseria o tricolor numa confraria com poucos membros, onde se destacava o Cruzeiro com sua  “Toca da Raposa”. Com essa estrutura, o tricolor passou a trabalhar com muito mais qualidade a formação de times e jogadores, fator preponderante para sua grande conquista que viria. Inaugurava-se o Fazendão e, com ele, o mandato mais longevo de presidente do Bahia, o de Paulo Maracajá.

Num futebol brasileiro umbilicalmente ligado à política, o trabalho de um presidente de clube não podia prescindir de uma grande habilidade e força nesse campo. Não somente a política partidária, mas a política como capacidade de negociação, de intimidação, de pressão, de chantagem, de disputa de poder.  Isso é um fato, não obstante o julgamento moral que dele possamos fazer. Nisso, destacavam-se nomes como Fabio Koff, no Grêmio, Marcio Braga, no Flamengo, Vicente Matheus, no Corinthians, Eurico Miranda no Vasco e, claro, Paulo Maracajá no Bahia. Alguns desses, dentre eles, Maracajá, fundaram o Clube dos 13, institucionalizaram as forças com maior capacidade de influência nas decisões do futebol brasileiro, desafiando por vezes a própria CBF.

E os anos 80 prosseguiram com o Bahia ainda instável, mas chegando em 1986 à 5ª colocação do brasileiro, e em 1988 finalmente conquistando o título. Viria a repetir um excelente time em 1990, mas caiu nas semifinais, ficando em 4º lugar, sendo eliminado em jogo questionável pelo Corinthians, que viria a conquistar seu primeiro titulo brasileiro, quando o Bahia já tinha dois. Em 1994, ano em que Maracajá despediu-se da presidência tricolor após 15 anos à frente do clube, o Bahia ficou em 7º lugar.  Nesse período entre 1988 e a metade dos anos 90, o tricolor teve jogadores convocados para a seleção, como Bobô, Zé Carlos, Charles e Luis Henrique. Talvez essa seja a época mais próxima de um protagonismo do Bahia no futebol brasileiro, se considerarmos conjuntamente sua influência entre os 13 maiores, seu segundo titulo nacional, seus jogadores na seleção e sua terceira participação na Libertadores.

Mas, a exemplo do início dos anos 60, as conquistas que tivemos dependeram muito de um presidente específico, centralizador, que conduzisse o clube com dedicação mas como  caudilho, com torcedores distantes da possibilidade de intervir nos caminhos do clube, com a categoria de sócio excludente economicamente e sem atrativo algum. Dependíamos da capacidade, da vontade, do desapego, da personalidade, da sorte. Não havia discussão: se nossos dirigentes poderiam ser personagens folclóricos, coronéis de romances de Dias Gomes ou Jorge Amado, mas nos dessem títulos, ótimo. Mas se não dessem, não podíamos fazer nada, a não ser aguardar a boa vontade dos “iluminados” em passar o bastão adiante, e torcer para que o sucessor com luzes também viesse.

Mas a era dos Euricos Maracajás já se aproximava de um final. E nos estertores desse tempo, sob o jugo de uma dinastia Guimarães de deplorável memória, o Bahia quase agonizava, respirando por aparelhos que eram ventilados pela sua invencível torcida e pela sua história. 

E finalmente o  principal passo para o Bahia se erguer e buscar patamares ainda maiores dentro do que já logrou conquistar e se restabelecer como protagonista no futebol brasileiro foi dado a partir da intervenção, com a democratização. E essa democratização hoje se consolida com o debate, com a pluralidade, com a participação do torcedor como sócio, votante, eleitor e eleito.  A responsabilidade financeira e patrimonial sendo respaldada pela discussão da deliberação coletiva como “clausula pétrea” na construção da nossa grandeza acima dos personagens que, torcedores como todos, tenham a honra de conduzir esse clube para as conquistas que merece. A afirmação de valores humanitários que refletem nossa diversidade, a valorização da força cultural e histórica do estado que nos honra com suas cores e com seu nome, o planejamento e realismo nos investimentos possíveis em jogadores que tenham real perfil para nos ajudar nessa trajetória, a priorização da formação dos nossos próprios atletas. Nossa torcida é protagonista no futebol brasileiro há muitos anos, construímos isso coletivamente. E é dessa forma que reconstruiremos o protagonismo do Bahia que queremos. 

BBMP!

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