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Coluna

Andre Uzeda
Publicada em 26/03/2018 às 22h20

Torcida, distorcida e distorção: Cidadania x Consumo

Há exatos cinco anos dois fenômenos sociais transformaram a história recente do Esporte Clube Bahia. Embora temporalmente próximos, e em certa medida tencionem para uma relação de causa e consequência, possuem caráteres distintos e apontam rumos próprios de comportamento.

Este texto ficou mais extenso que o pretendido. Tomei por opção, então, dividir em duas partes para tratar e recapitular cada um dos fenômenos isoladamente e, por fim, tratar deles conjuntamente.

A Arena Fonte Nova

Em abril de 2013, a Arena Fonte Nova foi inaugurada no mesmo local onde a tradicional foi interditada em 2007 (após a tragédia que vitimou sete) e veio abaixo, por demolição, em 2010.  Pensado como modelo Fifa para a Copa do Mundo de 2014, o novo estádio foi projetado para criar um novo hábito de consumo no torcedor baiano, mesmo operado no ‘modo legado’ – denominação dada pelos próprios gerentes do consórcio para a gestão pós-torneio mundial.

O conceito de estádio multiuso, a setorização da arquibancada, a venda de produtos fabricados (em substituição aos caseiros e manufaturados: amendoim cozido, rolete de cana, sorvete de frutas) e a higienização do ambiente ajudaram a criar um novo padrão de exigência na torcida. O ingresso majorou acompanhando os serviços inclusos. Há uma década, o ingresso custava R$ 10 (inteira) e atualmente custa seis vezes mais (R$ 60 inteira, no oeste).

O torcedor paga caro, quer serviços de qualidade (nem sempre ofertados no estádio, registre-se) e transforma em produto até o gesto de torcer. Exige um time ofensivo, critica o futebol morno e as opções de troca do treinador. Até aí, vá lá. Estamos de acordo. Mas avança, praticamente com o código de direito do consumidor embaixo do braço, em rota de colisão a um modo consagrado de torcer e se comportar no estádio.

O novo torcedor pede o “senta aê” mesmo em lances nos quais o Bahia ataca o adversário.  “Paguei caro e quero ver o jogo”, internaliza, em raciocínio correto aplicado em uma sala de cinema ou um espetáculo teatral. Ano passado, para me ater aqui numa experiência minha, no jogo Bahia x Vasco no Brasileiro sentei, como de costume, no setor oeste. O jogo estava 0 a 0 e o Bahia tinha uma cobrança de escanteio a seu favor.

Nem titubeei e levantei pra ver o lance. Um torcedor, sentado imediatamente atrás de mim, já veio impondo o “senta aê” em ato contínuo. Retruquei que não iria sentar porque o Bahia estava atacando e poderia sair o gol exatamente naquele lance. Houve uma breve discussão. Régis bateu o tiro de canto e Tiago, de cabeça, abriu o placar.

Na última terça-feira (20/3) me senti particularmente frustrado diante de um uníssono que entoava, em ironia sádica, um “adeus, Guto”, mesmo diante dos gols do Bahia. Foram cinco contra o Altos, do Piauí. A cada gol, a cantoria recomeçava. Uma pirraça comparável ao marcar um produto ruim nas redes sociais e questionar publicamente seu serviço. Ou encher de ligações o telemarketing de determinada empresa que não atendeu com a qualidade prometida.

Guto, de fato, não faz um bom trabalho neste início de ano. O futebol do time é bem ruim. A teimosia do treinador é latente. E, então, imbuído destas razões o novo torcedor-consumidor ignora princípios estabelecidos de apoio incondicional ao clube, crença na mística das jornadas impossíveis e regras invioláveis, como não aplaudir o gol do adversário mesmo em traços de manifesta ironia. Jogo de futebol não é exclusivamente um lazer, um programa de gastos calculados ou um passatempo para uma tarde morna de domingo.

É um universo místico construído no alicerce da paixão, dor e sofrimento.  O futebol move-se em sentido distante (sofrimento-prazer) da lógica de consumo (compra-prazer).

A democracia

Em setembro de 2013, o Bahia passou por uma intervenção judicial para a retirada de um grupo familiar que monopolizava a vida da agremiação, até então, nos últimos 15 anos. O processo, resultado do clamor da torcida, imprensa comprometida, agentes econômicos e movimento político-jurídico, reconfigurou a organização e gestão do Bahia.

O clube abriu espaço para a adesão de novos sócios (projeto que ainda não alavancou em proporção numérica), permitiu a disputa de novos grupos políticos no Conselho Deliberativo e promoveu, em meia década, três eleições diretas para presidente (tendo um mandato de um triênio completo sem interrupções).

Já conversei com muitos torcedores que acreditam piamente que a democracia trouxe, em efeito colateral aos bons ventos que sopram, a mudança de comportamento da torcida. Por esta lógica, a democracia teria dado um espírito crítico em demasia ao torcedor, que se sente por direito – dando vazão nas redes sociais – a participar e opinar sobre qualquer assunto relativo ao Esporte Clube Bahia.

Penso radicalmente diferente. O efeito direto da democracia é a cidadania. Ter participação e opinar na vida do clube – mesmo com ideias distorcidas, preconceituosas e críticas sem base funcional – faz parte do jogo democrático. O ajuste se dá na própria opinião pública: esfera de debates, acolhimento ou rejeição destes conceitos lançados pelo torcedor (atualmente fortemente mediado pelas redes sociais).

O nosso principal problema, e aí vale uma analogia direta com os anos de governo do PT (2003-2016), é que o modelo de consumo tem vencido a cidadania. Se os governos petistas têm o mérito de incluir milhões de brasileiros historicamente marginalizados abaixo da linha da pobreza, o fez pela via do consumo. O próprio discurso petista repetia o orgulho dos brasileiros que passaram a ter acesso a viagens de avião, linhas de crédito, contas em banco. Isso é louvável, mas é apenas uma parte do processo de inclusão e combate às desigualdades.

No Bahia, o modelo de consumo da Arena se sobrepõe ao modelo de cidadania vindo pelo movimento em prol da democracia do clube. Sintomas disso: o torcedor-consumidor reclama do mau desempenho do Bahia em campo, mas é insensível aos gritos homofóbicos e machistas que, insistentemente, continuam a ecoar das arquibancadas da Fonte Nova.      

Tenho muito receio como este texto vai ser interpretado. Não aqui faço uma defesa saudosista e apaixonada da velha Fonte Nova e nem recrimino a chegada de novos torcedores ao clube. No primeiro caso porque o antigo estádio tinha acomodações péssimas e há muito vinha sendo depreciado. No segundo, porque é saudável sempre uma renovação da torcida e que o modelo de torcer seja sempre reinventado, agregando novos modos conectados ao espírito de cada tempo. Esse texto toca no que Caetano Veloso, lá no movimento Tropicalista, já antecipou como um grande drama brasileiro: como ser civilizado sem perder uma essência particularmente nossa, uma autenticidade brasileira (aqui, no caso, particularmente baiana) e um jeito autóctone e inventivo de torcer e se manifestar?

Antes do “senta aê”, do “adeus, Guto” (mesmo com o Bahia goleando) preferia ver a torcida preocupada com posturas cidadãs, de acessibilidade, sensível às minorias ou mesmo preocupada em rever direitos básicos na própria relação de consumo (exigir da Arena serviços de qualidade na compra de ingressos, melhores preços na vaga do estacionamento, assentos maiores etc).

Esse é um desafio constante que a própria democracia ainda precisa vencer a fim de se manter vanguardista. Antes do torcedor-consumidor-tricolor, um torcedor-cidadão-tricolor.

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