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Coluna

Andre Uzeda
Publicada em 16/11/2018 às 15h11

É (também) mercado, estúpido

Existem muitas formas possíveis de ser estúpido. Esta certamente não é a frase de início de texto mais recomendável para abraçar o leitor – tampouco, a mais educada --, embora, muito a contragosto, enxergue como necessária neste momento.

Vim aqui falar sobre as recentes manifestações que o Esporte Clube Bahia, institucionalmente, tem provocado nas redes sociais. Neste mês do Novembro Negro, o clube homenageou, em suas camisas, negros vivos e mortos com fundamentais contribuições nas artes, ciências, política, religião, comunicação e, na junção destas coisas todas, um libelo à liberdade e contra o racismo.

Uma atitude humanamente louvável. Somam-se a isso as outras tomadas de posição que engrandecem a importância do clube: ter postado solidariedade após o flagrante assédio em rede nacional sofrido pela cantora Cláudia Leitte (torcedora do Bahia); condolências pela morte da vereadora Marielle Franco; ser laureado com um prêmio dado pelo Grupo Gay da Bahia e, depurando mais o tempo, em 2014, na gestão Schmidt, ter criado um mascote para homenagear a Mulher Maravilha Negra (Lindona da Bahêa, belíssimo nome), como símbolo de combate ao preconceito racial e à misoginia.

Estas novas ações posicionam o Bahia como um baluarte progressista e recolocam o clube em conexão direta com sua torcida – formada majoritariamente por negros, moradores de bairros populares aqui de Salvador. A gestão anterior, embora seja do mesmo grupo político desta atual, não mostrava preocupação com estas manifestações – são firulas na linha de fundo, talvez pensassem.

Vale lembrar que Marcelo Sant’Ana e Avancini (diretor de mercado) aprovaram uma camisa da Rússia como modelo-homenagem do Bahia, feita pela Umbro, para os escretes da Copa de 18. Nada contra a Rússia, afora o fato das relações históricas com nossa gente se restringirem ao insumo de vodka nas festas fechadas da classe média soteropolitana...

Faria mais sentido uma homenagem à África e um dos seus cinco países (Nigéria, Tunísia, Egito, Senegal e Marrocos) que estiveram no Mundial passado.

Mas, derivo... Eu falava da estupidez propriamente dita.

Há um grupelho de torcedores do Bahia que esperneiam a todo instante contra essas ações do clube. Dizem que o Bahia “virou uma entidade política”, que o clube “não deve se envolver nisso”, e que o “clube agora é dos esquerdinhas”.

Todas as frases aspeadas são reais, escritas no twitter, por mais absurdo que soem. Destaquei três, em laboratório, para demostrar a funcionalidade da descortês frase que abre este texto.

Vamos por ordem, tá ok?

“O Bahia virou uma entidade política”.

Verdade, amiguinho. Você tem razão. Desde 1931, quando foi fundado pelos jogadores da Associação Atlética e do Bahiano de Tênis no contexto da profissionalização do futebol e da modernização do Brasil após o golpe de 1930, alçando Getúlio Vargas ao poder com uma proposta de estabelecer esse conceito de estado moderno que conhecemos até hoje. O Bahia já nasceu um clube de futebol, diferente do seu rival Vitória, originário do cricket e do remo. O Bahia nasce nessa faceta moderna, do esporte bretão já estabelecido e com a luta contra o amadorismo em vias de superação.

Nasce com intuito de representar o estado da Bahia, num momento de descentralização da política São Paulo-Minas (chamada de “Café com Leite”) e no mesmo ano que um cearense (Juracy Magalhães) assume o governo da Bahia por imposição – o que gera revoltas barristas neste propósito.

O Bahia foi uma entidade política sempre que serviu de trampolim para eleger Villas-Boas, Maracajá e os Guimarães. Foi também como fundador do clube dos 13, ou quando os torcedores vaiaram a não convocação de Charles, na Copa América de 1989. Em episódios menos nobres, serviu aos propósitos da CBF para desarticular o Campeonato do Nordeste. E toda vez que entra em campo e vence uma partida contra um time do eixo Sul-Maravilha, num campeonato com distribuição de cota de TV desigual, é um clube político.

“Ahhh, mas o Bahia não deve se envolver nisso. São relações partidário-ideológicas. Tem que mudar tudo isso que tá aí”.

Estas relações não são ideológicas. Defender mulheres, negros e gays é defender sua própria torcida. E se você não consegue entender isso pelo viés humano – o que já é bem preocupante –, pense pela lógica do mercado, estúpido, se assim melhor lhe apetece. O Bahia tem conseguido inserir um novo torcedor em suas relações de consumo. O mascote Lindona da Bahêa é uma referência direta ao público feminino e sua necessidade de se sentir representado.

O público gay sempre teve dificuldade em frequentar estádio pelo ambiente excessivamente homofóbico reproduzido. Quando, nas cobranças de escanteio, você grita “vice” ao invés de “bicha”, numa franca evolução ao modo de se comportar da torcida mexicana na Copa de 14, você está contribuindo para um espaço melhor nas arquibancadas. No que faz muito bem... E ainda há muito o que evoluir nesse sentido.

Temos as cores de um estado com profundas relações com a África.  E se essa herança nos garante um caldo cultural único, transformador, que nos impõe em jeito singular de ser, vem também do legado colonial marcas indeléveis como o racismo, a interdição dos espaços de decisão para negros e um discurso fajuto de democracia racial e superação de preconceitos e injúrias. Quando o Bahia se cala diante disso e só se propõe a jogar futebol, não seja estúpido, esse silenciamento também é político.

“Ahh, mas o Bahia agora é comandado por esquerdinhas. Tem que metralhar toda essa petralhada.”

Um dos gols mais famosos do Bahia em seus 88 anos de história é com a perna esquerda.

China.... Raudinei, gol.

Não seja estúpido.

Sempre há tempo de mudar.

Mesmo aos 46.

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